Junho de 2009 – A segunda pála

Segunda-feira, 29 de junho de 2009.

Depois de um chá de cadeira de aproximadamente 4h, consigo me consultar com o meu angiologista. Ele não está mais atendendo onde eu costumava ir, em nenhum outro lugar, e nenhum outro horário… logo a pequena sala fica apinhada de gente à espera de uma consulta. Sua dedicação e atenção aos pacientes foram alguns motivos os quais me fizeram continuar consultando com ele, depois de rodar a cidade inteira atrás de algum especialista (vascular) em hemangioma. Bom, ele também não é um especialista, mas já operou vários daqueles mais comuns (os hemangiomas planos), geralmente em crianças, e tem muita segurança no que diz, e nas condutas (ou falta de) adotadas.

O fato é que nestes 2 anos e pouco de acompanhamento, ele não tinha visto ainda meu joelho dando “pála” ou em crise como agora, e todas as recomendações (até agora) tem sido no intuito de um tratamento conservador, ou seja: deixa quieto, porque uma cirurgia é complicada demais e pode até piorar a situação.

No dia em que cheguei lá de cadeira de rodas, há mais ou menos um mês, ele parecia não acreditar. Segundo ele, o meu joelho só voltaria a dar pála igual à de 2007 “se eu aprontasse muuuuito”. E o que seria esse aprontar muito? Eu voltar a tomar hormônios, engravidar, ter um trauma na articulação do joelho, ficar muito tempo em pé sem se movimentar… saibam então que essas coisas que pioram varizes também pioram o hemangioma, é sempre bom lembrar. Mas, eu não fiz nada disso! A única coisa diferente de trabalhar (sentada no computador) e levar minha vida com algumas limitações impostas pelas dores ocasionais e pontadas foi eu ter começado a fazer mais exercícios – no caso pilates – e tomar corticóides para uma gripe/alergia/asma/sinusite que me pegou de jeito há mais de um mês atrás. Vamos analisar as 2 hipóteses:

1. Pilates

O pilates, eu e minha fisioterapeuta sentíamos confiança e vontade em fazer, depois de 8 meses bem-sucedidos na hidroterapia. Hidroterapia, aliás, era o único exercício que eu podia praticar para não lesionar o joelho e não sobrecarregar a articulação, e era diferente de “levantamento de mouse” e “flexão de pálpebras”. Fortaleceu os músculos de sustentação da patela, melhorou o rangido e me deu mais confiança em usar mais a perna direita. Tudo então ia muito bem para a sedentária convicta aqui, e eu decidi então entrar para o pilates, já que meu esposo estava fazendo e gostando, fiquei empolgadíssima para começar. Daí para eu não conseguir mais pisar no chão de dor foram 2 semanas (ou 4 sessões). Na primeira, o prof. já sabia de todo o problema e que eu não poderia flexionar muito a perna direita, mas mesmo assim me passou um exercício com carga nesta perna. Cheguei mancando na hidroterapia e tomei uma bronca da fisioterapeuta, claro. “Ôxi! Você não pode deixar ele fazer o exercício que ele quiser no seu joelho, não!”, disse ela com típico sotaque baiano. Então, a partir deste dia, passei a impor a ele o meu ritmo, o que eu sabia que poderia fazer e o que não, e achei que estava indo bem, fora as dores musculares causadas pelos abdominais. Mas não estava não, e no dia seguinte à 4a. sessão, nem na hidroterapia eu conseguia ir mais.

2. Corticóides

Foi basicamente assim:
– Crise de sinusite diagonosticada depois de tomar mil remédios para a gripe e não melhorar;
– Tomografia dos seios da face para confirmar a sinusite;
– Tratamento com mil remédios antialérgicos, inalação e corticóides por 15 dias;
– Parada lenta com os corticóides, pois como eles são muito fortes, não se pode parar de uma vez.
Ok. Só que esta parada não foi exatamente “lenta” como era para ser. Primeiro porque o meu alergista não me orientou sobre isso. Segundo: meu esposo é médico, mas não desta área, então me passou o que sabia e lembrava: no penúltimo dia tomei um comprimido pela metade e no último dia a outra metade. Bom, ao conversar com um colega dele endocrinologista, o “desmame” como eles chamam, deveria ser feito em etapas, divindo a dosagem sempre por 2: de 40mg, passa para 20mg e toma uma semana; depois de 20mg para 10mg – mais uma semana… e assim por diante, até acabar tudo. O que acontece na verdade é que os corticóides mexem muito com a parte hormonal (e isso eu senti na pele – parecia que eu estava de TPM por um mês todinho), e isso pode piorar muito o hemangioma.

Conclusão

As duas hipóteses separadas ou juntas podem ter contribuído para a piora do hemangioma, pois ele não iria piorar sem nenhum fato extra. Foi assim em 2007, quando vários eventos ocorreram juntos para que ele ficasse no estado em que ficou: hormônios, caminhadas excessivas nas ladeiras de BH, viagem de ônibus com o joelho dobrado muitas horas na mesma posição, academia e exercícios que eu não estava acostumada a fazer… Mas isso tudo porque na época eu não sabia ainda qual era o meu problema, e que realmente tinha um problema sério no joelho (a primeira pála eu deixo para  contar em outro post). Podem ter sido todos estes fatores juntou ou apenas um. Nem eu, nem os médicos sabemos dizer o quê fez isso eclodir e me causar tanta dor de cabeça depois de 30 anos sem nem saber que o hemangioma existia.

Mas enfim… voltando à consulta com o angiologista na segunda-feira, ele sempre foi relutante em me pedir uma arteriografia, sempre me pedindo paciência, para esperar ver como fica, etc e na segunda ele me parece ainda mais contrário à este exame. É caro e tem riscos, principalmente para vc que é alérgica ao contraste de iodo, e ainda tem a história do catéter, que eu tenho medo até de pensar, depois de ouvir a vida inteira minha mãe falar que meu pai (falecido) preferia morrer do que fazer um exame de catéter de tanto medo dele se perder dentro do corpo. Isso tem mais cara de lenda urbana que realidade, mas como todo exame invasivo, tem seus riscos. E os benefícios? Seria apenas para tirar a dúvida se há um pedículo (ou artéria nutridora) de onde o sangue chega a todo o hemangioma. Se houver, podemos tentar um procedimento chamado embolização para fechar a passagem de sangue até o hemangioma. Assim ele secaria e seria absorvido rapidamente pelo corpo. É um procedimento mais comum e tranquilo e o meu angiologista mesmo já fez várias vezes, e é até razoavelmente seguro, desde que tenhamos um pedículo a embolizar (entupir). Temos também a opção de fazer outro procedimento chamado esclerose ou escleroterapia, para casos em que não hajam uma artéria nutridora para uma embolização (provavelmente o meu caso). Este é um procedimento como o de aplicação em varizes ou vasinhos: aplica-se uma substância irritante diretamente nos vasos que compõem o hemangioma com uma injeção. Após algum tempo eles se contraem, diminuem de tamanho e o hemangioma fica menor, melhorando o inchaço e a dor, mas ele não é absorvido pelo organismo. É só para melhorar a dor e tem muitos riscos da substância vazar e prejudicar a articulação do joelho.

O pior é que acaba caindo no mesmo dilema da cirugia: Não sabemos se o é realmente necessário, e se fizermos, pode ser pior ainda do que não fazer nada.

Parecia que depois de tanto tempo tentando manter um tratamento conservador, ele se sentiu pressionado a me dar alguma conduta, então me passou alguns comprimidos para varizes grossas tipo daflon, que a sua avó provavelmente já tomou, uma meia elástica que não é bonitinha como a kendall (meia cirúrgica, grossona) e me deu mais 2 meses de atestado, para eu ficar muito tempo com a perna pra cima. Me disse que vai avaliar tudo depois disso e se nao melhorar, vamos partir para o exame de arteriografia e que se não mostrar nenhum pedículo, sorry, mas do que do ponto de vista vascular ele não poderia fazer mais nada. Ele não se arriscaria numa escleroterapia, pois não saberia onde exatamente aplicar a injeção, com muito risco de pegar tecido bom e ter necrose.

Então é isso: saí do consultório muito triste, mas com a certeza de que ficar deitada com a perna pra cima por mais 2 meses é horrível, mas desesperar e fazer qualquer outra coisa agora neste momento pode ser pior ainda. Então viva meu marido e a internet (nesta ordem) , porque eu não sei o que seria de mim neste período sem eles.

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2 Comentários em “Junho de 2009 – A segunda pála”


  1. […] Vênus de Sinus Superando um hemangioma de joelho « Junho de 2009 – A segunda pála […]

  2. Isabel Says:

    Estou com minha mãe com um hemangioma gigante na boa e ela é muito idosa para uma cirurgia, diz seu médico. Não estamos com muitas opções para ela e fica difícil enfrentar mesmo porque ela é uma pessoa com muita saude fisica e mental. Uma pena.


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